Solamente outra vez!

Rosa Pena


Narinha ensaiou mil despedidas mais do que cada escapulida dele. Agora não tinha mais volta! Solamente revolta. Treinou derramar lágrimas na hora certa, um silêncio eloquente, a chantagem emocional, a troca de fogo e de culpas, o ar de carente e trilhões de jeitos para ele se sentir um canalha. Deixou as olheiras ficarem mais roxas do que já estavam. Usaria preto-caixão. Luto! Depois raciocinou que seria burrice. Bandeira! Vingança é um prato que se come frio (frase feita, mas ótima). Um lápis no olho de forma bandida, seu vestido mais justo da cor do diabo e apenas um adeus triunfal. Ele que implorasse por um beijo seu e ouviria um sonoro não. Nada de blábláblá e choros melancólicos. Aliás, adeus é forte demais! Muito dramático. Um tchau sem tragédia, um até mais ver, vai pela sombra, cuidado com a chuva, cuida do Chico, seja feliz! Ele chegou uma hora antes do combinado, entrou sem tocar e encontrou-a debaixo do chuveiro cantando: Solamente una vez amé en la vida!
Ela brecou no dó maior e só conseguiu balbuciar:
— Ensaboa minhas costas, mas não demora. Vitela é um prato que se come quente.
Onde arrumar outro amante na quarentena? Esse pelo menos era um miliciano vacinado na mão grande.
Rosa Pena
Enviado por Rosa Pena em 11/04/2021
Alterado em 12/04/2021





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